Universo Místico

Os estudiosos da época dos Universos Místicos eram movidos por interesses de cariz mais astrológico que astronómico. Mais do que compreender as leis do Universo tentavam determinar o destino dos homens.

  • Motivação astrológica
  • Origem divina
  • Princípio e fim
   

c. 3000 aC

Babilónios

A primeira fêmea - Tiamat - deu à luz, como resultado da sua união com Apsu, o deus dos oceanos, o deus dos céus, Anu.
Depois, a relação (necessariamente incestuosa, como era frequente nos misticismos e religiões primordiais que tentam explicar a proliferação de deuses ou seres humanos a partir de um único casal original) de Anu com com Tiamat gerou Ea, o deus da Terra e Marduk, o deus das tempestades
A multiplicação destas relações foi originando, ao longo do tempo, cerca de 600 (!) deuses e deusas.
   

3100-30 aC

Egípcios

O ser primário Atum, vivia no oceano primordial Nun. Nut, a deusa do céu, apoiava-se em Shu, o deus ar. , o deus-Sol percorria diariamente, num barco, o corpo de Nut durante a noite e mergulhava em rios subterrâneos durante o dia. Geb era o deus da Terra.
   

c. 2000 aC

Chineses

Deuses antropomórficos com uma ocupação semelhante à dos humanos.
Em 500 aC Confúcio criou o conceito dos pólos opostos: o Yin - a Terra, feminino e em repouso, e por cima, Yang - o Céu, masculino e em movimento.
A Lua era o Yin, sombrio, frio e húmido. O Sol era Yang, luminoso, quente e seco.

 

Universo Matemático

  • Preocupação estética
  • Órbitas circulares (perfeitas)
  • Esfera das estrelas
  • Deduções a partir da razão pura - Inutilidade das observações
  • Centrismo do Universo
  • Princípio e fim
   

c. 625-546 aC

Tales (de Mileto)

Marca o fim das explicações mitológicas do Universo ao concentrar-se na substância física básica. Considerava a água como o princípio e o fim de todas as coisas.
   

c. 611-547 aC

Anaximandro

Supostamente descobriu a obliquidade da eclíptica. É considerado o fundador da cosmologia e considerava o Universo como sendo formado por cilindros concêntricos: o mais exterior era o do Sol, o do meio era o da Lua e o mais interior o das estrelas.
Considerava o Universo como sendo o resultado da separação dos opostos (frio e quente, seco e húmido) a partir de um material inicial ao qual tudo voltaria mais tarde.
   

c. 570-500 aC

Anaximenes

Considerava o ar como sendo o elemento principal, princípio e fim de todas as coisas.
   

c. 582-500 aC

Pitágoras

Preocupação estética
Órbitas circulares (perfeitas)
Esfera das estrelas
Deduções a partir da razão pura - Inutilidade das observações
Centrismo do Universo
Princípio e fim

Fundador do conceito matemático do Universo (ou Cosmos, como lhe chamou),  governado por leis matemáticas, gerido por números que eram o princípio de todas as coisas, de origem divina e, como tal, perfeitos.
O centro do universo pitagórico era ocupado por um "fogo invisível", em torno do qual se moviam 10 objectos: a antiterra, a Terra, a Lua, o Sol, Mercúrio, Vénus, Marte, Júpiter e Saturno, e por fim, a esfera das estrelas.
O universo pitagórico tinha uma evidente preocupação estética: a Terra deixava de ser plana para assumir a forma - matematicamente mais perfeita - de uma esfera e a antiterra foi imaginada apenas para que o total de objectos perfizesse 10 - o "número perfeito".
O Universo podia ser deduzido a partir da razão pura, da matemática, e as observações eram consideradas inúteis. As órbitas eram consideradas circulares, perfeitas.
   

c. 428-347 aC

Platão

Geocentrismo
Esfera das estrelas e dos planetas
Movimentos uniformes
Universo finito e limitado

Adaptou o universo pitagórico - embora mantendo e mesmo reforçando as preocupações estéticas - mas colocando a Terra, imóvel,  no centro da esfera das estrelas e dos planetas, tornando-se assim o fundador do geocentrismo, e ressuscitando o antropocentrismo dos universos místicos.
A Terra manteve-se esférica e as órbitas circulares. Os movimentos eram uniformes, sem qualquer aceleração.

 

Universo Científico

  • Preocupação estética
  • Órbitas circulares (perfeitas)
  • Esfera das estrelas
  • Esferas dos planetas
  • Utilidade das observações
  • Centrismo do Universo
  • Princípio e fim
   

408-355 aC

Eudóxio

Utilidade das observações
Esferas dos planetas
Aperfeiçoou o universo platónico com a preocupação de tentar explicar as observações (que contrariavam as deduções matemáticas da razão pura de Pitágoras e Platão) dos movimentos retrógrados dos planetas.
As duas esferas do universo platónico - a Terra e a esfera dos planetas e estrelas - multiplicaram-se: entre elas foi criada uma esfera concêntrica para cada um dos planetas.
Além destas, para tentar explicar o movimento retrógrado dos planetas, viu-se na necessidade de criar - para cada um deles - uma outra pequena esfera cujo centro percorria a esfera principal. O universo de Eudóxio tinha 33 esferas no total!
   

384-322 aC

Aristóteles

Preocupação estética - Perfeição geométrica do universo (exterior)
Terra imóvel e sem rotação própria
Aparecimento do éter
Para aperfeiçoar o universo de Eudóxio - adaptando-o às observações cada vez mais precisas - aumentou o número de esferas para 55! Cada esfera planetária estava agora associada a quatro ou cinco outras esferas.
O universo aristotélico estava dividido em dois: o interior, mutável, imperfeito e mortal, continha a Terra e a Lua; o exterior, imutável, perfeito e eterno, continha os outros planetas e as estrelas. No universo interior qualquer dos 4 elementos se movia exclusivamente em linha recta antes de ficarem, naturalmente, em repouso: o ar e o fogo ascendiam aos céus enquanto a água e a terra caíam para o solo; no universo exterior os movimentos eram circulares (perfeitos) e eternos no seio de um quinto elemento a que chamou éter.
A Terra estava imóvel, sem rotação sobre ela própria. O Universo era finito e esférico.
   

310-250 aC

Aristarco de Samos

Foi o primeiro, segundo os escritos de Arquimedes, a defender que a Terra girava à volta do Sol. A julgar pelo que se seguiu, ninguém o ouviu.
   

276-196 aC

Eratóstenes

  Calculou o perímetro da Terra em 40.000 Kms(1) ao determinar astronomicamente a diferença de latitudes entre as cidades de Siena e Alexandria.

(1) O perímetro da Terra é hoje calculado em cerca de 40.075 Kms.

   

100-170

Ptolomeu

Abolição das esferas planetárias
Preocupação estética - Introdução dos Epiciclos
Rectificou duas falhas do universo aristotélico que se tinham tornado evidentes com as observações: a pretensa uniformidade dos movimentos dos planetas e o conceito das esferas planetárias.
Para explicar os movimentos "anormais" dos planetas - que apresentam variações na velocidade das suas órbitas - criou a noção dos epiciclos.  O movimento de cada planeta era assim uma acumulação de dois movimentos uniformes (perfeitos): o do planeta no seu epiciclo e o do centro deste agora na esfera celeste (as esferas planetárias tiveram que ser abolidas também para explicar a variação observada no brilho e dimensão angular aparentes dos planetas).

Os seus cálculos foram publicados no Almajesto que viria a ser o fundamento de mais de sete séculos de astronomia árabe e o sistema ptolemaico perduraria até ao século XVI. Até Copérnico e Galileu!

 

Universo Cristão

  • Preocupação estética
  • Órbitas circulares (perfeitas)
  • Esfera das estrelas
  • Esferas dos planetas
  • Utilidade das observações
  • Centrismo do Universo
  • Princípio e fim
   

313

O Imperador romano Constantino converte-se ao Cristianismo.
   

1184

Início da Inquisição Episcopal

  Instituída por uma bula papal para combater a heresia dos Cátaros, no sul de França. Era administrada por bispos e daí chamar-se, nesta fase, "inquisição episcopal".
   

1209-1229

Cruzada Albigense

  Organizada pelo papa Inocêncio III, deu início à eliminação da "heresia cátara".
   

1230

Início da Inquisição Papal

  Face à ineficiência da inquisição episcopal em resolver a questão cátara, o papa Gregório IX chamou a si o controlo das actividades da Inquisição, que em 1255 viria a conseguir finalmente o objectivo de eliminar a "heresia cátara" e - literalmente - os próprios Cátaros.
   

1225-1274

S. Tomás de Aquino

  Reintrodução do misticismo
  Esforçou-se por unificar o universo grego de Aristóteles e Ptolomeu - em que Deus não aparecia de forma explícita e os planetas giravam eternamente - com os conceitos da Igreja que defende que há um princípio e um fim e Deus tem um papel muito mais explícito.
A Terra continua no centro do Universo, esférica e imóvel. Os planetas continuam nas suas esferas mas é adoptada a esfera suplementar introduzida pelos árabes: a esfera primária para além da qual, mas a uma distância finita, residia Deus - no empíreo - de onde vigiava o funcionamento do Universo, ajudado pelos anjos que habitavam as esferas dos planetas e do Sol, num grau decrescente de divindade à medida que se afastavam de Deus. A esfera da Lua continuava a ter um papel de fronteira entre a Terra e as altas esferas. Nas entranhas da Terra ficava o inferno, domínio dos demónios e do Mal. A sucessão dos dias e das noites era resultado do combate entre o Bem (dia) e o Mal (noite).
Reapareceu assim, através da religião, o elemento mítico que tinha desaparecido com os gregos, mas tentando manter o elemento racional dos gregos.
   

1401-1464

Nicolau de Cusa (cardeal alemão)

  Considerou que, sendo Deus infinito e omnipresente em todas as regiões do Universo então qualquer região deveria ser centro. Nenhum lugar era especial e haveria uma infinidade de centros. A esta ideia chama-se hoje o princípio cosmológico e constitui a hipótese segundo a qual o Universo é semelhante a si mesmo em todos os pontos (homogéneo) e em todas as direcções (isotrópico).
É claro que o pioneirismo de tal ideia não foi aceite na época e só voltaria a aparecer séculos mais tarde, na actualidade.
   

1474-1543

Copérnico

  Heliocentrismo => Fim do antropocentrismo
Primeiro abalo na noção de perfeição dos céus
  Tirou finalmente a Terra da sua imobilidade no centro do Universo, pondo em causa 2000 anos de conceitos aristotélicos.
O centro do universo coperniciano estavas situado perto do Sol e a Terra foi posta ao nível dos outros planetas ficando apenas a Lua a ter a Terra como centro do seu movimento. Os planetas continuavam no entanto a mover-se sobre esferas cristalinas, impulsionados por anjos. As órbitas continuavam circulares e perfeitas e os movimentos, também perfeitamente, a ser uniformes. Mantinham-se também os epiciclos de Ptolomeu.
O Universo continuava porém a ser finito, limitado pela esfera celeste. No entanto Copérnico viu-se obrigado a afastar a esfera celeste - que se acreditava estar apenas um pouco para além da esfera de Saturno - para bem mais longe de forma a acomodar a evidência de as estrelas se manterem fixas apesar do agora reconhecido movimento da Terra em redor do Sol (ver paralaxe).
O universo heliocêntrico de Copérnico retirou o homem do centro do Universo e da atenção de Deus. A Terra - que antes pertencia ao universo imperfeito, mutável e efémero - ascendeu às altas esferas dos outros planetas, ao universo perfeito, imutável e eterno, o que abalou a noção de perfeição dos céus.
Copérnico teve também a inteligência de adiar a publicação das suas conclusões o mais que pôde, praticamente até à altura da sua morte. A sua obra, "Acerca da Revolução das Orbes Celestes", continha inclusivamente um prefácio não assinado - possivelmente introduzido pelo seu editor - que assegurava que o autor não acreditava que o Universo funcionasse como era descrito no livro e que este pretendia apenas ser um modelo matemático que conseguia prever os movimentos dos objectos celestes de forma mais cómoda que os modelos de Ptolomeu.
   

1542

Início do Santo Ofício

  Para combater o protestantismo o Papa Paulo III fomenta a actuação da Inquisição e cria o Tribunal do Santo Ofício.
   

1546-1595

Thomas Digges

Esfera das estrelas => Universo finito => Universo infinito
Concluiu, como consequência da medição que efectuou da paralaxe da supernova de 1572, que ela não podia estar entre a esfera da Lua e a Terra (considerado na altura ser o único lugar onde poderiam acontecer alterações). Propôs, em 1573, o abandono do conceito da esfera exterior de estrelas tornando assim o universo infinito.
   

1546-1601

Tycho Brahe

  Esferas cristalinas
Imutabilidade dos céus <=> Perfeição divina
  Aboliu a noção geral das esferas cristalinas, da imutabilidade dos céus e das órbitas circulares depois de ter observado a supernova de 1572 e o cometa de 1577. No entanto criou um modelo de universo que tentava conciliar o heliocentrismo com o geocentrismo: os planetas giravam em trono do Sol mas este girava em torno da Terra.

1548-1600

Giordano Bruno

Monge dominicano, abandonou a ordem em 1576 para evitar um julgamento por questões doutrinais.
Concebeu um Universo infinito, salpicado por mundos habitados por uma infinidade de formas de vida celebrando a glória de Deus. Esta última possibilidade valeu-lhe a acusação de heresia por parte da Igreja e a morte na fogueira, em Itália.
   

1564-1642

Galileu

Geocentrismo => Heliocentrismo
Perfeição divina
Rejeitou a distinção aristotélica de que os movimentos sobre a Terra seriam sempre rectilíneos e os celestes circulares.
Valorizou a experimentação e a observação de tal forma que é hoje considerado o fundador da Física Experimental.
Ao observar com a ajuda de um telescópio as manchas lunares e solares concluiu pela inexactidão da pretensa perfeição divina dos céus. Ao descobrir a existência de satélites de Júpiter liquidou de vez a noção de que tudo girava em torno da Terra.
O seu livro "Diálogo sobre os Grandes Sistemas do Mundo" esteve no Índex da Igreja até 1835 !
   

1571-1630

Johannes Kepler

Órbitas circulares => Órbitas elípticas
Epiciclos
Movimentos uniformes dos planetas
Assistente de Tycho Brahe, herdou deste as inúmeras e precisas medições e anotações sobre os movimentos dos corpos celestes a partir das quais concluiu que, contrariamente ao que era suposto desde Platão, as órbitas não eram circulares mas sim elípticas. Isto tornava desnecessários os epiciclos. Verificou também que os movimentos não eram uniformes dado que os planetas aceleravam perto do Sol e desaceleravam longe deste e supôs (erradamente) que tal se devia a forças magnéticas - mais fortes perto do Sol e mais fracas longe dele.
   

Universo Mecânico

   

1642-1727

Isaac Newton

Gravidade
Esferas cristalinas
  Mostrou que as leis do movimento dos planetas de Kepler podiam ser derivadas das leis gerais dos movimentos e da gravitação que ele próprio criou para explicar porque os planetas "não caem" demonstrando assim a validade das leis físicas tanto na Terra como nos céus. Concluiu pela inexistência das esferas cristalinas. Ao explicar os movimentos dos planetas nas suas órbitas dispensou a ajuda divina e dos anjos para os manter em movimento.
   

1879-1955

Albert Einstein

Universo estacionário
Propôs, em 1917, um modelo do Universo baseado na sua Teoria da Relatividade Geral em que a gravidade era explicada como uma deformação do tetradimensional espaço-tempo. A sua solução apontava para um Universo não-estático - no qual Einstein não acreditava - pelo que postulou a existência de uma força de repulsão entre as galáxias que contrariaria a força da gravidade. Para forçar o resultado de um Universo estático, introduziu nos seus cálculos a famosa "constante cosmológica". Perante a descoberta posterior de Hubble viria a considerar este seu acto como "o maior erro da sua vida".
   

1888-1925

Alexander Friedmann

Em 1922 propôs um modelo não-estático do Universo tendo, em média, a mesma densidade de matéria em qualquer ponto. Caso a quantidade de matéria seja relativamente pequena o Universo expandir-se-á para sempre e será aberto, de extensão infinita. Se a densidade estiver acima de um certo valor crítico então a velocidade da expansão diminuirá até para e de seguida ele voltará a contrair-se sob a força de atracção da gravidade. Será assim um universo fechado, finito.
   

1889-1953

Edwin Hubble

Universo estacionário => Universo em expansão
Descobriu a existência de inúmeras galáxias muito para além da Via Láctea. Ainda mais importante que isso, descobriu que essas galáxias se estão a afastar da Via Láctea e com tanta mais velocidade quanto mais afastadas estão. Deu assim origem ao modelo do Universo em expansão.
   

1927

Georges Lemaître

  Introduziu a ideia de um "átomo primordial" a partir do qual se teriam originado as galáxias.
   

1964-1968

George Gamow

  Retomou e desenvolveu a ideia original de Lemaître. A ideia de uma explosão original que daria origem ao Universo viria a ser conhecida pelo nome de Big Bang, dado por troça por Fred Hoyle, na altura um dos maiores adversários desta teoria.
   

1992 (!)

Galileu é absolvido

  Uma Comissão supervisionada pelo cardeal Paul Poupard admite que Galileu fora "mais perceptivo na interpretação da Bíblia que os seus acusadores" e admite que - tal como Galileu sugerira - a Bíblia deverá ser encarada não como dizendo sempre a verdade absoluta mas, por vezes, como uma metáfora. Em 31 de Outubro de 1992 (!) o Papa João Paulo II perdoou formalmente Galileu. 350 anos depois da sua morte!